Turritopsis dohrnii: a água-viva que volta ao início da vida e intriga cientistas

Turritopsis dohrnii: a água-viva que volta ao início da vida e intriga cientistas

Foto: Dr. Karen J. Osborn / Wikimedia Commons (CC0)

Uma criatura minúscula e quase transparente está chamando a atenção da ciência. Segundo reportagem da g1, a Turritopsis dohrnii resiste a quase tudo que os pesquisadores tentam fazer com ela, e agora eles querem entender o motivo.

Um bichinho que resiste a quase tudo

Maria Miglietta, bióloga marinha da Universidade A&M do Texas, em Galveston (Estados Unidos), já pôs à prova os limites dessa espécie. Ela cortou os animais, ferveu, deixou-os sem comida, carregou os tanques de sal e até os jogou em água doce. Mesmo assim, as criaturas continuam desafiando a morte.

Quando sentem pressão, elas param de nadar e afundam até o fundo do tanque. Aí acontece a parte mais curiosa: o corpo se transforma em uma bola de células, bem diferente da forma de guarda-chuva com tentáculos que a medusa adulta tem.

Da bolinha de células à nova colônia

Em um a três dias, dessa bola surge o pólipo, uma fase inicial da vida do animal. Ele cresce até formar uma colônia, que acaba gerando novas medusas. Miglietta resume o processo: “De uma água-viva que não morre, você consegue esta colônia que pode formar centenas de outras”.

Pela lógica da pesquisa, cada uma dessas novas medusas, em princípio, também pode rejuvenescer do mesmo jeito. É por isso que a capacidade parece quase infinita.

A história começou em 1992, quando um cientista italiano manteve os animais em laboratório e acabou esquecendo de alimentá-los durante um fim de semana. Ele imaginava encontrar tudo morto, mas achou novos pólipos no recipiente.

O segredo está nas células

Pouco depois, o biólogo Stefano Piraino, da Universidade de Salento, na Itália, decidiu descobrir o que tornava aquele feito possível. Em geral, as células-tronco de um embrião se transformam em células nervosas, musculares e outras, e param ali até envelhecer e morrer.

Água-viva transparente, em forma de disco, com partes rosadas, nadando em mar azul
Água-viva transparente, em forma de disco, com partes rosadas, nadando em mar azul. Foto: Alexander Vasenin / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Piraino percebeu que, durante o rejuvenescimento, certos tecidos da medusa passam por um processo chamado transdiferenciação. As células voltam a um estado parecido com o das células-tronco e, depois, se especializam em outros tipos. Segundo Miglietta, que trabalhou no laboratório de Piraino, as células adultas perdem a especialização e viram o que o pólipo precisa para se formar.

Até onde se sabe, a espécie é um caso único no reino animal. Lagartos, vermes e anfíbios conseguem regenerar partes do corpo perdidas, mas nenhum deles transforma um corpo adulto de volta em bebê.

O que os genes revelam

Em um estudo de 2022, pesquisadores compararam os genes dessa água-viva com os de uma espécie parente que, pelo que se sabe, não rejuvenesce. O biólogo molecular Victor Quesada, da Universidade de Oviedo, na Espanha, lembra que é difícil ter certeza disso, já que muitas águas-vivas são pouco estudadas.

Água-viva pequena e translúcida sobre areia molhada em água rasa, vista de cima
Água-viva pequena e translúcida sobre areia molhada em água rasa, vista de cima. Foto: Mary McGuire / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O DNA da espécie tem mais cópias de genes que produzem proteínas para reparar mutações e outras lesões que se acumulam com a idade. Também tem mais cópias dos genes ligados aos telômeros, pequenas “tampas” no fim das fitas de DNA que protegem o material genético. Com a idade, esses telômeros encurtam, deixando o DNA mais vulnerável. Quesada acredita que a maior capacidade de reparo desses telômeros pode ser um dos motivos da longevidade do animal.

Um caminho longo até a medicina humana

Miglietta, por sua vez, comparou os genes ativados em cada fase de vida e notou que alguns só funcionam no estágio de cisto em forma de bola, quando as células mudam de destino. Em estudos de 2019 e 2021, ela encontrou atividade maior de genes com funções ainda desconhecidas, além dos ligados ao reparo de DNA e aos telômeros. Em um estudo preliminar, também identificou sobreposição entre genes ativos nesse estágio e genes relacionados à longevidade em seres humanos, o que pode indicar processos comuns às duas espécies.

Atualmente, Miglietta colabora com Michael Koldobskiy, oncologista pediatra e também físico pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, com o objetivo de investigar se esses mecanismos conseguem ser ativados em células humanas. O sonho final dos dois é identificar a “chave” molecular que controla essa transformação.

Koldobskiy é direto sobre a distância que ainda existe: “Estamos muito longe de aproveitar isso para benefício humano”. Ele afirma, porém, que entender organismos que desenvolveram esses processos há milhões de anos pode valer a pena.

O que pode mudar para a saúde

Os cientistas já conseguiram induzir processos parecidos com o rejuvenescimento em células de mamíferos, mas aplicar isso a tecidos humanos se mostrou difícil. A expectativa é que o estudo da água-viva revele caminhos mais eficazes.

Entre as possibilidades citadas estão acelerar a cicatrização de feridas e a recuperação de tecidos após AVC ou infarto. Também se fala em reverter, talvez, os danos da perda de visão causada pela idade e da neurodegeneração provocada pelo Alzheimer. Para quem convive com esses problemas, o tema desperta interesse, mas ainda se trata de hipótese.

O objetivo, segundo os pesquisadores, não é transformar idosos em bebês, como acontece no filme O Curioso Caso de Benjamin Button (2008). Essa ideia continua restrita à ficção científica. A espécie mostra que envelhecer e morrer nem sempre são inevitáveis do ponto de vista biológico, embora os cientistas não descartem que ela morra de causas naturais um dia.

Enquanto a pesquisa avança, vale lembrar que nenhuma descoberta com animais marinhos muda a rotina de cuidados de hoje. Quem tem alguma condição de saúde ou pensa em começar uma atividade física deve conversar com o médico ou com um profissional de educação física antes de qualquer mudança. Nunca é tarde para cuidar do corpo, e cada passo conta.

O que os cientistas chamam de biologia regenerativa

Segundo a g1, o oncologista pediatra Michael Koldobskiy chama de “santo graal” a biologia regenerativa, que busca reverter a degeneração ligada ao envelhecimento. Ao mesmo tempo, ele diz: “Não iremos diminuir até nos tornarmos embriões e recomeçar”. Para ele, “em nível de órgãos e tecidos, acho que esta é uma possibilidade real”.

Turritopsis dohrnii: Duas águas-vivas em fundo escuro; a maior tem sino claro com pintas douradas e franjas
Duas águas-vivas em fundo escuro; a maior tem sino claro com pintas douradas e franjas. Foto: Miguel Angel Omaña Rojas / Wikimedia Commons (CC0)

Os genes do estágio de bola de células

Segundo a g1, Maria Miglietta comparou os genes ativos em cada fase de vida da espécie. Ela examinou os que funcionam apenas na fase da bola de células. Para a pesquisadora, “esta pode ser uma indicação de que estes genes estão envolvidos naquele processo único”.

Perguntas frequentes sobre Turritopsis dohrnii

O que é a Turritopsis dohrnii?

É uma água-viva minúscula e quase transparente. A medusa adulta tem forma de guarda-chuva com tentáculos. Quando sofre pressão, ela afunda e o corpo vira uma bola de células, que dá origem a um pólipo e, depois, a novas medusas. O caso foi relatado pela primeira vez em 1992.

A Turritopsis dohrnii é mesmo imortal?

O animal ganhou o apelido de “água-viva imortal” por causa da capacidade de rejuvenescer. A espécie mostra que envelhecer e morrer nem sempre são biologicamente inevitáveis, mas os cientistas não descartam que ela morra de causas naturais um dia.

A Turritopsis dohrnii pode ajudar em tratamentos humanos?

Ainda é uma hipótese. Entre as possibilidades citadas estão acelerar a cicatrização de feridas e a recuperação de tecidos após AVC ou infarto. Koldobskiy afirma que “estamos muito longe de aproveitar isso para benefício humano”. Os cientistas já induziram processos parecidos em células de mamíferos, mas aplicá-los a tecidos humanos se mostrou difícil.

Quais genes os pesquisadores estudam na Turritopsis dohrnii?

Em um estudo de 2022, a equipe comparou os genes da espécie com os de um parente que, até onde se sabe, não rejuvenesce. O DNA tem mais cópias de genes que ajudam a reparar lesões acumuladas com a idade, além de genes ligados aos telômeros. Em pesquisas de 2019 e 2021, Miglietta encontrou maior atividade de genes com funções ainda desconhecidas.

Conteúdo informativo, não substitui orientação de profissional de saúde. Fonte oficial vinculada na matéria.

E você, acha que pesquisas com um bichinho do mar podem um dia ajudar a sua saúde?

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Comentários

Uma resposta para “Turritopsis dohrnii: a água-viva que volta ao início da vida e intriga cientistas”

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