Foto: Deekshitchauhan / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
As doadoras de leite materno perdem mais massa óssea do que as mulheres que só amamentam o próprio filho? Segundo a Super, uma pesquisa da Unesp de Botucatu chegou a uma resposta que surpreendeu as próprias autoras.
Neste artigo
Durante a gravidez e a amamentação, o corpo da mulher precisa de mais cálcio. Quando esse mineral não está disponível em quantidade suficiente, o organismo retira o que falta do próprio esqueleto. Nos primeiros quatro meses de aleitamento, essa perda pode chegar a 10%, e a massa óssea só volta a se recompor depois que a alimentação do bebê passa a ser complementada, a partir de seis meses.
Como o estudo foi feito
A professora Tamara Beres Lederer Goldberg e duas orientandas de doutorado quiseram saber se produzir mais leite faz os ossos perderem mais massa. Entre julho de 2020 e março de 2023, elas acompanharam 77 nutrizes, como são chamadas as mulheres que estão produzindo leite. Desse total, 38 amamentavam só o próprio bebê e 39 também doavam o excedente.

Para evitar outras influências, entraram no estudo mulheres de 18 a 38 anos, grávidas pela primeira vez, com gestação de risco habitual. Quem tinha doenças que afetam os ossos ou obesidade ficou de fora. Todas passaram por exames de densitometria e de sangue, e o volume de leite doado foi medido.
O que aconteceu com os ossos
Após seis meses de amamentação, os resultados de massa óssea dos dois grupos ficaram exatamente iguais. Para a professora, a constatação foi uma surpresa, já que a literatura científica não tinha investigado antes os efeitos da doação sobre os ossos das doadoras. Nas palavras dela, “o acometimento é o mesmo”.

Entre seis e 12 meses após o parto, com a amamentação já complementada, a densidade mineral óssea da coluna lombar das doadoras subiu 5%, e a do fêmur, 1,5%. Já o índice de massa corporal não mudou de forma significativa. Além disso, o marcador que indica a degradação do colágeno ósseo caiu a partir do sexto mês, sinal de que o osso entrou em fase de recuperação.
Ao comparar as doadoras, aos 12 meses, com as não doadoras logo após o parto, os valores de densidade óssea tenderam a voltar às médias iniciais. Ou seja, a perda existe, mas é passageira. Segundo a pesquisadora, doar leite não agrava a saúde óssea mais do que a própria amamentação faz.
Um alerta para o pré-natal
A perda observada durante o aleitamento exclusivo, embora temporária, é maior do que a que ocorre na menopausa, que fica entre 1% e 3% ao ano. Por isso, o estudo reforça que a qualidade dos ossos precisa de atenção antes mesmo da gestação.

As pesquisadoras também notaram que as participantes tinham baixa ingestão de cálcio na alimentação e não receberam suplementação de cálcio ou vitamina D durante a gravidez. No SUS, segundo a professora, só se oferece ácido fólico. Nos serviços conveniados e privados, a suplementação existe, mas não há exames que confirmem se a dose é suficiente.
Agora, a equipe prepara novas frentes de pesquisa, como a perda de massa óssea ao longo de toda a gravidez, o impacto de gestações múltiplas, o efeito da obesidade e possíveis diferenças entre mulheres brancas e pretas. A recomendação para a amamentação, porém, não muda: a Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta que seja exclusiva até os seis meses de vida do bebê e complementada até os dois anos ou mais.
Quais exames foram feitos e quando
Além da densitometria, o estudo fez exames de sangue para medir cálcio, fósforo, vitamina D, estradiol e hormônio da paratireoide. Segundo o Super, também foram dosados marcadores de formação e reabsorção óssea.
O cronograma foi diferente para cada grupo. As mulheres que só amamentavam foram avaliadas aos 15 dias e aos seis meses após o parto. As doadoras foram avaliadas aos seis e aos 12 meses.
Sinais de recuperação óssea nos exames de sangue
A queda da fosfatase alcalina óssea, marcador de formação do osso, acompanhou a do CTX. Para a equipe, isso indica menor atividade de remodelação óssea, ou seja, menos troca de tecido no osso.
A pesquisa foi publicada no Jornal de Pediatria. Segundo o Super, a professora afirma que ainda há poucas pesquisas que definam as quantidades de cálcio e vitamina D necessárias nesse momento da vida da mulher.
Próximos passos da pesquisa
Hoje, a professora Tamara coordena um estudo com gestantes atendidas no Sistema Único de Saúde em Botucatu. O objetivo é identificar os períodos mais críticos de perda óssea na gravidez, o que pode orientar políticas públicas.
Para a pesquisadora, o estudo serve de alerta para ginecologistas e pediatras. “Afinal, a amamentação é um processo social”, disse ela ao Super.
Perguntas frequentes sobre doadoras de leite materno
As doadoras de leite materno perdem massa óssea?
A perda existe, mas é temporária. Segundo o Super, durante os primeiros quatro meses de amamentação, a queda da massa óssea pode variar de 3% a 10%. Depois que a alimentação do bebê passa a ser complementada, a massa óssea volta a se recompor. O estudo acompanhou esse processo nas doadoras.
As doadoras de leite materno têm mais perda óssea que as que só amamentam?
Não, segundo a professora Tamara Beres Lederer Goldberg. A equipe imaginava que produzir mais leite causaria maior perda de massa óssea. Nas palavras dela, “a resposta é não”.
Por que o cálcio importa para as doadoras de leite materno?
A produção de leite exige cálcio. Sem quantidade suficiente, o organismo tira o mineral do próprio esqueleto. Segundo as pesquisadoras, a vitamina D também é fundamental para a manutenção e o ganho de massa óssea. Tamara afirma que o leite materno é rico em cálcio, por isso as crianças devem recebê-lo.
Quem deve ficar atento a esse tema?
Ginecologistas e pediatras, que acompanham mães e bebês, são o público que o estudo quer alertar. Segundo a pesquisadora, a mulher que amamenta precisa de suporte e de orientação profissional, além de uma rede de apoio em casa.
E você, já imaginava que a falta de cálcio durante a gravidez e a amamentação pode cobrar a conta dos ossos da mãe?
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