Suplementos de moda entre usuários de Ozempic: entenda por que médicos alertam para os riscos

Suplementos de moda entre usuários de Ozempic: entenda por que médicos alertam para os riscos

Foto: Mx. Granger / Wikimedia Commons (CC0)

Medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Wegovy, transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Mas junto com a perda de peso vêm efeitos colaterais incômodos — e cada vez mais usuários de Ozempic buscam suplementos para aliviá-los, muitas vezes sem orientação profissional adequada.

Segundo o G1, quase metade dos usuários de GLP-1 começou a tomar vitaminas e suplementos após iniciar o tratamento. O problema: esses produtos são pouco regulados e as promessas que circulam nas redes sociais nem sempre têm base científica sólida.

Quando o suplemento vira solução (mas nem sempre funciona)

Allison Vecchio, uma enfermeira de 42 anos da Flórida, conhece bem essa situação. Apesar de os medicamentos funcionarem no seu caso, ela enfrentava reações adversas intensas: problemas gastrointestinais, unhas frágeis e uma debilidade tão grande que havia dias em que não conseguia deixar a cama. Quando começou a tomar um coquetel de suplementos — fibras, colágeno e eletrólitos — os sintomas diminuíram. O custo? Entre US$ 200 a US$ 300 por mês (uma quantia nada desprezível).

Terri Hart, uma TikToker com mais de 12 mil seguidores, relata algo parecido. Ela toma magnésio, eletrólitos, vitamina B12 e outros suplementos para compensar o que chamou de “horríveis” náuseas, fadiga e constipação. Os gastos mensais dela chegam a cerca de US$ 110 — custos que o plano de saúde não assume, mas que os ganhos como influenciadora ajudam a compensar.

Os números mostram o tamanho do fenômeno. As vendas de suplementos nos EUA ultrapassaram US$ 74 bilhões em 2025. No TikTok Shop sozinho, produtos de vitaminas e suplementos geraram mais de US$ 1 bilhão em vendas em 2025, representando 5,4% de todas as vendas de suplementos no comércio eletrônico.

O perigo invisível: você realmente sabe o que está tomando?

Aqui está o grande problema. Vitaminas e suplementos não precisam de aprovação prévia da FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) antes de chegar às prateleiras. Isso significa que ninguém verificou oficialmente se o produto contém mesmo o que promete ou se é seguro.

usuários de Ozempic: Pilha de comprimidos brancos redondos sobre uma superfície branca, com sombras suaves
Pilha de comprimidos brancos redondos sobre uma superfície branca, com sombras suaves. Foto: Mx. Granger / Wikimedia Commons (CC0)

Jonathan Bonnet, professor clínico associado em Stanford, sintetiza bem a questão: “Se você não consegue saber o que está tomando, é difícil saber quais riscos está correndo”.

A situação piora quando influenciadores ganham comissão para promover esses produtos. Rob Fried, presidente-executivo da Niagen Bioscience, advertiu que companhias têm a opção de recrutar um único criador de conteúdo ou até centenas deles no TikTok… para fazer qualquer afirmação que ajude a vender”. E como Allison Vecchio (com 25 mil seguidores) e Hart demonstram, muitos profissionais de saúde e criadores também entram nesse jogo.

Fibras, proteínas e colágeno em alta — mas por quê?

Os suplementos mais procurados por quem usa GLP-1 são probióticos, proteínas e fibras. Segundo pesquisa do Boston Consulting Group, os usuários desses medicamentos gastam cerca de 20% a mais em proteína, fibras e colágeno do que antes de começarem o tratamento.

Isso faz sentido fisiológico: quando você come menos (um efeito direto do GLP-1), precisa garantir que o pouco que consome seja nutritivo. O colágeno, em particular, promete manter a estrutura da pele — algo importante quando há perda de peso rápida.

A massa muscular: o lado invisível da perda de peso

Um estudo recente traz uma informação crucial que costuma passar despercebida. Conforme dados analisados pelo MundoBoaForma com base em 570 mil usuários americanos, a semaglutida (princípio ativo do Ozempic e Wegovy) consegue preservar melhor a massa muscular durante o processo de emagrecimento em comparação à tirzepatida (Mounjaro).

Os números são revelaores: entre pacientes que usaram tirzepatida, 5% da perda de peso aos 12 meses foi de massa magra. Já com semaglutida, essa proporção caiu para apenas 2%. “O número na balança é apenas parte da história”, alertou Venky Soundararajan, fundador da empresa de análise de dados que realizou o estudo. “Preservar força, mobilidade e resiliência metabólica também importa”.

Por isso, quando você escolhe quais suplementos tomar, a pergunta não é só “isso vai aliviar o efeito colateral?” — é também “isso vai ajudar a preservar meu corpo enquanto perco peso?”.

Outro alerta: riscos com a visão

Há também preocupações mais sérias. Conforme relatado no MundoBoaForma, usuários de Wegovy apresentam risco quase cinco vezes maior de neuropatia óptica isquêmica — uma perda súbita da visão causada por fluxo sanguíneo inadequado ao nervo óptico — em comparação com usuários de Ozempic.

A análise de relatos de efeitos colaterais à FDA entre dezembro de 2017 e dezembro de 2024 mostrou que essa complicação é rara, mas real. As doses mais altas e a via de administração (injeção semanal) do Wegovy parecem influenciar esse risco maior. Embora o Rybelsus (comprimido oral de semaglutida) não apresentou essa associação.

O que fazer antes de começar a tomar qualquer suplemento

A safra de influenciadores bem-intencionados promovendo suplementos pode fazer parecer que a solução é simples e acessível. Não é. Antes de investir em qualquer coquetel vitamínico, converse com seu médico ou nutricionista — especialmente se você está usando GLP-1. Ele conhece seu histórico, suas comorbidades e pode orientar quais suplementos realmente fazem sentido no seu caso específico.

Nem todo suplemento que “ajudou” alguém na internet vai ajudar você. E comprar produtos sem aprovação regulatória, só porque um influenciador com milhares de seguidores promove, é apostar sua saúde em uma moeda ao ar.

O futuro dos medicamentos para obesidade pode incluir novas opções que preservem ainda mais a massa muscular (como o bimagrumabe, que está em desenvolvimento clínico), mas isso reforça uma verdade simples: quando o assunto é seu corpo e sua saúde, pequenos passos acompanhados por um profissional levam a resultados muito melhores do que receitas prontas de redes sociais.

Bafo de Ozempic: um efeito que ainda não está bem estudado

O termo “bafo de Ozempic” circula nas redes sociais para descrever mau hálito relatado por quem usa esses medicamentos. Segundo especialistas ouvidos pelo MundoBoaForma, a halitose não é um efeito colateral direto clássico dessas canetas.

Caneta aplicadora azul de Ozempic deitada sobre superfície cinza, com rótulo em chinês
Caneta aplicadora azul de Ozempic deitada sobre superfície cinza, com rótulo em chinês. Foto: HualinXMN / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Entre as causas possíveis estão a digestão mais lenta, que pode favorecer a fermentação no estômago, e a xerostomia, a redução da saliva. Como a saliva limpa a boca e controla bactérias, sua falta pode aumentar o acúmulo de biofilme bacteriano.

A frequência do problema ainda não é conhecida, porque a halitose geralmente não é avaliada nos estudos clínicos. A recomendação é manter boa hidratação, evitar jejuns prolongados e reforçar a higiene bucal. Se o problema persistir, procure um profissional de saúde, sem interromper o tratamento por conta própria.

Ozempic e câncer de intestino: o que dizem os estudos

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em San Diego, analisaram 6.871 pacientes com câncer de intestino. Segundo o MundoBoaForma, a mortalidade em cinco anos foi de 15,5% entre quem usava os medicamentos e de 37,1% entre quem não usava.

Dois frascos brancos de suplemento com rótulo em russo e cápsulas amarelas na mesa
Dois frascos brancos de suplemento com rótulo em russo e cápsulas amarelas na mesa. Foto: Svtk44 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O estudo é observacional. Para confirmar que os medicamentos causam a redução, são necessários ensaios clínicos. Ainda não está claro se o efeito é direto ou resultado da melhora metabólica.

Outro trabalho, apresentado na Asco, analisou 170.030 pacientes com diabetes e obesidade nos Estados Unidos. Os usuários de agonistas de GLP-1 tiveram risco 7% menor de desenvolver 14 tipos de câncer ligados à obesidade. Para os tumores de intestino e retal, a diminuição foi de 16% e 28%.

Perguntas frequentes sobre usuários de Ozempic

Usuários de Ozempic devem tomar suplementos?

Quase metade dos usuários de GLP-1 começou a tomar vitaminas e suplementos após o tratamento, segundo pesquisa do Nutrition Business Journal. Antes de tomar qualquer produto, a recomendação é conversar com o médico ou nutricionista.

Por que os suplementos são um risco para usuários de Ozempic?

Vitaminas e suplementos não precisam de aprovação prévia da FDA. Por isso, as pessoas não sabem exatamente o que há em muitos suplementos, segundo Jonathan Bonnet, professor clínico associado em Stanford.

Usuários de Ozempic podem ter mau hálito?

Relatos de mau hálito, o chamado bafo de Ozempic, existem nas redes sociais. Especialistas dizem que não é um efeito colateral direto clássico, e a frequência ainda não está estabelecida.

O estudo sobre câncer de intestino prova que o Ozempic protege?

Não há essa prova ainda. O estudo é observacional e mostra uma associação, não a causa. Para comprovar o efeito, são necessários ensaios clínicos.

Conteúdo informativo, não substitui orientação de profissional de saúde. Fonte oficial vinculada na matéria.

E você, já pensou em tomar suplementos enquanto usa GLP-1? Qual é sua maior dúvida antes de começar — o preço, os efeitos colaterais ou a confiança no produto?

Leia também

Comentários

Uma resposta para “Suplementos de moda entre usuários de Ozempic: entenda por que médicos alertam para os riscos”

  1. […] Usuários de Ozempic e os riscos dos suplementos […]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *