Foto: Ghedoghedo / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Os anfíbios são conhecidos por viver em dois mundos, na terra e na água. O próprio nome do grupo, em grego, significa “vida dupla”. Mesmo assim, entre as mais de oito mil espécies atuais, nenhuma vive exclusivamente no mar. Um fóssil chinês pode mudar esse cenário, como informou a Super Interessante.
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Dois esqueletos com 237 milhões de anos
Os fósseis foram encontrados na província de Guizhou. Eles sugerem que um anfíbio habitou as águas salgadas da região há cerca de 237 milhões de anos, no período Triássico.

Batizado de Gerrothorax maritimus, o bicho media cerca de 74 centímetros. Seu corpo era achatado e coberto por escamas duras, parecidas com uma armadura.
Por que a descoberta chama tanta atenção
Steve Brusatte, paleontólogo que não participou do estudo, comentou o caso com a revista Nature. Ele avaliou que, se o animal era mesmo totalmente marinho, a descoberta teria um peso enorme para a ciência.
Na prática, os pesquisadores precisam repensar como os anfíbios atuais se adaptaram à vida na terra e na água doce. Afinal, até agora ninguém tinha encontrado um caso assim.
O problema é que quase nenhum anfíbio atual aguenta o sal. Hoje, apenas cerca de 2% deles toleram os níveis de salinidade do mar.
O que a pele fina tem a ver com o sal
Peixes marinhos têm glândulas que eliminam o excesso de sal. Já os anfíbios não conseguem controlar a quantidade que absorvem, porque a pele deles é fina e permeável.

Ryosuke Motani, autor do estudo, explicou à Reuters o que acontece com um sapo na água salgada. Segundo ele, “ele também não consegue beber água, pelo mesmo motivo”. O resultado é perda de peso e a necessidade de voltar à água doce para se recuperar.
Uma armadura que ganhou outra função
No caso do Gerrothorax maritimus, a armadura óssea foi a chave. Ela protegia o animal de predadores na água doce e, com o tempo, passou a ajudá-lo também no mar.
Essa couraça teria impedido que a água salgada entrasse pela pele. Assim, o animal bebia a água do mar pela boca e filtrava o sal nas brânquias. Motani chama esse fenômeno de exaptação, quando uma característica biológica passa a cumprir uma função diferente da original.
Um parente de água doce e uma pista nos ossos
A análise anatômica aponta o Gerrothorax pulcherrimus como o parente mais próximo da espécie. Ele também tinha armadura e corpo achatado, mas vivia só em água doce. Para os pesquisadores, o estilo de vida marinho foi, portanto, um acaso da evolução.

Também se levantou a hipótese de que o esqueleto tivesse sido levado ao mar depois da morte, como acontece com outros fósseis. Os ossos, porém, foram achados longe de qualquer terra firme da época, o que dificulta essa explicação.
Além disso, a análise dos isótopos mostrou que os níveis encontrados nos ossos coincidiam com os da água do mar do Triássico. Segundo o estudo, publicado na revista Nature Ecology & Evolution, esses animais teriam crescido bebendo água salgada.
O que é um fóssil e como ele se forma
O termo fóssil vem do latim fossilis, que significa “tirado da terra”. Segundo a Wikipédia, fósseis são restos de seres vivos ou evidências de suas atividades biológicas preservados em materiais como rochas, sedimento, gelo, resina e cavernas. Os exemplos mais citados são ossos, conchas, ovos e pegadas.
Há dois tipos. Os restos são evidências diretas do ser vivo, como dentes, carapaças e folhas. Os vestígios são evidências indiretas, como pegadas, marcas de mordidas e excrementos fossilizados. A fossilização é rara: para um ser vivo virar fóssil, ele precisa ser rapidamente coberto por material que o preserve, geralmente sedimento.
Ossos e conchas aparecem com mais frequência no registro fóssil porque são mais duros e resistem melhor à decomposição. A tafonomia é a área que estuda o caminho até o fóssil, desde a produção do resto biológico até ele ser encontrado.
Como o sal afeta o corpo de um anfíbio
Segundo a Super Interessante, a pele fina e permeável permite que os anfíbios respirem e absorvam água doce. Em água salgada, porém, eles sofrem desidratação rápida.
Ryosuke Motani explica que a água do mar extrai a água do corpo do sapo pela pele, por meio da pressão osmótica. Por isso, o animal perde peso e precisa voltar à água doce para se recuperar.
O que os isótopos revelam sobre o animal
A equipe analisou os isótopos do animal para descobrir o que ele comia e onde vivia. Segundo a Super Interessante, essa análise também poderia ajudar na datação de minerais e de água em amostras marinhas.
Perguntas frequentes sobre fóssil chinês
Onde foi encontrado o fóssil chinês do anfíbio marinho?
Os dois esqueletos foram achados na província de Guizhou, na China. Eles sugerem que o animal, batizado de Gerrothorax maritimus, habitou as águas salgadas da região há cerca de 237 milhões de anos, no período Triássico. O bicho media cerca de 74 centímetros e tinha corpo achatado, coberto por escamas duras, parecidas com uma armadura.
Por que um fóssil chinês de anfíbio chama tanta atenção?
Entre as mais de oito mil espécies atuais de anfíbios, nenhuma vive exclusivamente no mar. Por isso, o achado é diferente de tudo o que se conhecia até agora. Segundo a Super Interessante, o paleontólogo Steve Brusatte, que não participou do estudo, avaliou que a descoberta teria peso enorme para a ciência se o animal era mesmo totalmente marinho.
Como um fóssil ajuda a entender a evolução?
Segundo a Wikipédia, os fósseis fornecem dados importantes sobre a evolução biológica, a datação e a reconstituição da história geológica da Terra. Apenas uma porcentagem ínfima das espécies que já habitaram o planeta virou fóssil, porque a fossilização é um fenômeno excepcional. Por isso, cada novo achado, como o fóssil chinês de Guizhou, ajuda a preencher lacunas dessa história.
Qual é a diferença entre restos e vestígios em um fóssil?
Restos são partes preservadas do próprio ser vivo, como dentes, carapaças e conchas, e são evidências diretas. Vestígios são evidências indiretas, resultantes das atividades biológicas, como pegadas, ovos e marcas de mordidas. Ambos são estudados pela paleontologia, a principal área científica que usa fósseis como objeto de estudo.
E você, acha que ainda existem outros anfíbios escondidos na história que tenham vivido só no mar?
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