Foto: Couch-scratching-cats / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
Aproximadamente 6 mil brasileiros falecem anualmente em razão de enfermidades respiratórias desencadeadas por temperaturas extremas. E a surpresa que desafia o senso comum: o vilão maior não é o frio, mas o calor. Essa conclusão vem de um estudo feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicado pela Super Interessante com base em dados da revista PLOS Climate.
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Os cientistas passaram a lupa em mais de 1 milhão de registros de óbitos entre 2010 e 2020 em 646 municípios brasileiros. O achado: cerca de 66 mil mortes por doenças respiratórias nesse período estiveram associadas a temperaturas fora da faixa segura para os brasileiros, que fica em torno de 22,4 °C. Desse total de 66 mil mortes no período, 4,27% foram atribuídas ao calor e 1,81% ao frio. Uma virada completa comparada ao que a maioria dos estudos internacionais apontava.
Por que o calor machuca mais as vias respiratórias
As temperaturas altas afetam os pulmões de formas bem específicas. A desidratação resseca as vias aéreas e deixa a secreção pulmonar mais viscosa, tornando a sua eliminação mais difícil. Isso intensifica a irritação das vias respiratórias e abre caminho para infecções e crises de asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). “Além disso, respiramos mais rapidamente para dissipar calor, o que aumenta o esforço do sistema respiratório”, explica o pneumologista Humberto Bogossian, do Einstein Hospital Israelita.

Mas o calor não age sozinho. A baixa umidade do ar, a poluição atmosférica, as queimadas e a concentração elevada de ozônio amplificam esse efeito. Soma-se a isso a urbanização acelerada: “As cidades também vêm perdendo áreas verdes e acumulando mais superfícies impermeáveis, formando ilhas de calor que agravam ainda mais esse cenário”, aponta Bogossian.
Uma expectativa importada que não se encaixa no Brasil
O resultado surpreende porque contraria décadas de pesquisa desenvolvida principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde o frio é o principal fator climático por trás das mortes respiratórias. O Brasil importou essa visão sem questionar. Segundo o relato, essa expectativa foi trazida de fora, porém foi estabelecida com base no clima de outro lugar. No Brasil, a história muda”, avalia Guilherme Coelho, médico de família e primeiro autor da pesquisa.

Ele explica por que o padrão é diferente por aqui: “Encontramos a temperatura de menor risco em 22,4°C. O detalhe é que, em aproximadamente três quartos dos dias do ano, o país está acima desse ponto de conforto. Uma vez que a população fica exposta ao calor por muito mais tempo, ocorre uma acumulação maior de óbitos, explicou o especialista. Quando o termômetro bate recordes, as estatísticas são claras: períodos de forte calor aumentam a mortalidade em 43%, enquanto episódios de frio extremo elevam esse índice em 29%.
O Brasil ainda não está preparado para o calor
Um dos problemas é que o país carece de infraestrutura e políticas públicas pensadas para proteger a população durante ondas de calor intenso. Na prática clínica, essa realidade já é visível. O especialista destaca que tem notado uma intensificação das crises respiratórias também “na primavera e no verão, principalmente de DPOC e asma”. Conforme relata o pneumologista, os períodos frios ficaram mais breves e suaves, enquanto as ondas de calor vêm se tornando progressivamente mais severas.
Há alguns anos, os agravamentos de doenças respiratórias ficavam concentrados no outono e no inverno. Hoje, eles aparecem espalhados ao longo de todo o ano, alterando os padrões de cuidado e vigilância.
O Brasil não é um só: cada região tem sua temperatura de risco
O estudo revelou diferenças cruciais entre as regiões brasileiras que desafiam qualquer estratégia padronizada. No Norte, a proporção de mortes ligadas ao calor chega a 12,5%, enquanto no Sul o frio ainda é o principal fator associado aos óbitos respiratórios.

Essa disparidade tem origem clara: a temperatura de menor risco varia conforme o clima local. No Norte, fica perto de 32°C; no Sul, em torno de 23°C. “Cada região adaptou seu organismo ao clima em que vive. Por isso, políticas públicas padronizadas não funcionam”, observa Coelho. “O Norte e o Nordeste precisam de planos específicos para enfrentar o calor, enquanto o Sul precisa de medidas voltadas ao frio.”
O paradoxo do frio nas regiões quentes
Existe um fenômeno intrigante chamado “paradoxo do frio”: em estados amazônicos, por exemplo, temperaturas próximas de 24°C — consideradas agradáveis na maior parte do país — podem estar ligadas ao aumento de mortes respiratórias. Por quê? “O problema não é o número absoluto no termômetro, mas sair da temperatura à qual a população está acostumada”, explica Coelho. Casas construídas para dissipar calor, baixíssima adaptação fisiológica ao frio e serviços de saúde pouco preparados para esses episódios ajudam a esclarecer por que resfriados incomuns nessas regiões viram ameaças sérias.
Os idosos pagam o preço mais alto
Cerca de 75% das mortes respiratórias associadas às temperaturas extremas aconteceram entre idosos. Isso ocorre porque o envelhecimento reduz a capacidade do corpo de manter a temperatura estável, predispõe à desidratação e costuma vir carregado de doenças crônicas respiratórias e cardiovasculares que agravam tudo.
Como se proteger durante o calor extremo
Para diminuir os riscos durante ondas de calor, especialistas recomendam manter boa hidratação, evitar exposição ao sol nos horários de pico, usar roupas leves e respiráveis, umidificar os ambientes internos, manter o tratamento em dia para doenças respiratórias e estar com as vacinas em dia — influenza, Covid-19, pneumococo e vírus sincicial respiratório (VSR).
A metodologia do estudo
A Unicamp, fundada em 1962 e considerada uma das melhores universidades do Brasil, coordenou a análise de mais de 1 milhão de registros de óbitos. Os pesquisadores examinaram dados entre 2010 e 2020 em 646 municípios brasileiros para chegar aos números. O estudo foi publicado na revista PLOS Climate e revelou que a população brasileira passa muito mais tempo exposta ao calor do que ao frio extremo, acumulando maiores riscos ao longo dos anos.
Perguntas e respostas: por que o calor mata mais brasileiros
Por que calor mata mais brasileiros que frio em doenças respiratórias?
O calor causa desidratação das vias aéreas, tornando a secreção pulmonar mais viscosa e difícil de eliminar. Além disso, a população brasileira fica exposta ao calor durante aproximadamente três quartos dos dias do ano, acumulando maior número de óbitos. Quando há calor intenso, o risco de morte aumenta em 43%, contra 29% em episódios de frio extremo.
Qual é a temperatura mais segura para os brasileiros?
Segundo o estudo, a temperatura de menor risco para a população brasileira como um todo é de cerca de 22,4°C. No entanto, essa temperatura varia por região: no Norte é aproximadamente 32°C, e no Sul em torno de 23°C. Cada região adaptou seu organismo ao clima local, por isso não existe um número único seguro para todo o país.
Como se proteger quando o calor mata mais brasileiros?
Especialistas recomendam manter boa hidratação, evitar exposição ao sol nos horários de pico, usar roupas leves e respiráveis, umidificar os ambientes internos, manter o tratamento em dia para doenças respiratórias preexistentes e estar com as vacinas em dia: influenza, Covid-19, pneumococo e vírus sincicial respiratório (VSR).
Por que o Brasil não estava preparado para essa realidade?
O país importou modelos de prevenção desenvolvidos principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde o frio é o principal fator de risco respiratório. Essas expectativas não se adequam ao clima tropical e subtropical brasileiro. Além disso, faltam infraestrutura e políticas públicas pensadas para proteger a população durante ondas de calor intenso.
E você, conhecia esse lado invisível do calor sobre a saúde respiratória? Já notou mudanças nos padrões de doenças ao longo do ano onde mora?
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