Foto: Sardaka / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Uma mulher chegou aos cinco meses de gravidez sem fazer ideia de que estava esperando um filho. Cauany Rizzo, de 27 anos, influenciadora digital e dona de uma empresa de marketing, descobriu a gestação de forma inesperada durante um treino com a personal trainer Geisi Costa, como informou o G1. A cena foi registrada em vídeo e compartilhada nas redes sociais, viralizando entre seguidores.
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Como alguém chega tão longe sem perceber?
A resposta está no histórico clínico de Cauany. Desde a primeira menstruação, seus ciclos foram raros — apenas duas vezes ao ano, no máximo. Ela usou anticoncepcional injetável e depois um dispositivo intrauterino (DIU) hormonal. Médicos em consultas ginecológicas afirmaram que seus ovários eram muito pequenos e atrofiados, levando-a à convicção de que seria infértil e jamais engravidaria.

Essa crença era tão forte que, mesmo quando seu corpo começou a mudar, Cauany interpretou os sinais como doença. Nos últimos meses, ela sofreu com dores que migravam de uma região para outra — da lombar para a cervical, trapézio, cotovelo e pé —, além de sono excessivo, enjoo, tontura, esquecimento, irritação e sensibilidade nos seios.
Uma jornada pelo consultório após consultório
Desesperada para encontrar respostas, Cauany passou por uma verdadeira maratona de profissionais: ortopedista, cirurgião plástico, fisioterapeuta, psicólogo, psiquiatra e ginecologista. Realizou ressonância magnética, exames de sangue, acupuntura e quiropraxia. Recebeu diagnóstico de fibromialgia, começou a tomar medicamentos para dor e depressão, e recompôs ferro após anemia ser identificada.
Mesmo com toda essa investigação, nenhum profissional solicitou o beta-HCG — o exame de sangue que mede o hormônio da gravidez. Foi a personal trainer Geisi, que atende gestantes há anos e conhecia Cauany desde a adolescência, quem enxergou o que os médicos não viram.
O olhar da personal que fez diferença
Geisi percebia transformações graduais na silhueta de sua aluna: quadril com nova conformação, rosto intumescido, mamas desenvolvidas, variações de humor, espasmos musculares e uma fadiga atípica para quem dormia pouco anteriormente. Ela insistiu por meses para que Cauany fizesse um teste de gravidez, sempre ouvindo a mesma resposta: a convicção de ser infértil.

Houve uma exceção no início — Cauany fez um teste de farmácia por dúvida, mas o resultado foi negativo, e a possibilidade foi descartada. Sem contar sua suspeita, Geisi trocou os treinos de intensidade por exercícios de fortalecimento lombar e equilíbrio. Depois, avisou que só voltaria a treiná-la após um novo teste.
Foi durante esse teste que a gravidez foi confirmada: cinco meses já haviam se passado.
Por que o corpo mudou tanto — e ninguém percebeu?
A obstetra Ana Carolina Romanini, formada pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), reafirma que as modificações apontadas pela personal correspondem exatamente ao esperado na gestação. A progesterona, hormônio principal da gravidez, faz o corpo reter líquido e provoca sono intenso num organismo que gasta mais calorias devido ao metabolismo acelerado.
Ligamentos e articulações da pelve ficam mais frouxos para acomodar o bebê, fazendo a bacia se abrir e a cintura se perder com o crescimento do útero. Estimuladas pelos hormônios, as mamas incham e ficam sensíveis desde as primeiras semanas. Tudo isso é preparação natural do corpo.
A barriga, porém, é o sinal mais imprevisível. Na volta da 12ª semana, a barriga começa a apresentar uma pequena saliência. Com 20 semanas — idade gestacional estimada para Cauany —, o útero chega à altura do umbigo. Mas em primeiras gestações, a barriga costuma demorar mais tempo para aparecer de forma visível. Durante um exercício como a elevação pélvica, um leve abaulamento pode ser a única pista.
A dor que surgiu durante o treino
A pontada que Cauany descreveu no momento em que a gravidez foi descoberta, diferente de uma cólica menstrual comum, também tem explicação médica. Nesse período, o útero que cresce estira os ligamentos circulares que o fixam, podendo gerar dor no abdômen inferior que se estende até as pernas.
O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas associa esse desconforto ao segundo trimestre. O serviço de saúde britânico o caracteriza como uma dor aguda que surge de um lado do baixo-ventre — normalmente sem risco quando fraca e momentânea, melhorando com descanso ou alteração da posição do corpo. Quando o desconforto ultrapassa 30 a 60 minutos ou surge acompanhado de sangue, contrações periódicas, dor nas costas ou problemas urinários, o ideal é procurar um médico com urgência.
Quando o ciclo irregular virou vilão
Gestações descobertas só na segunda metade do período são raras, mas documentadas. Uma pesquisa de 2002 na Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, desenvolvida em Berlim, calculou que uma entre 475 gestações só foi identificada a partir da 20ª semana. Uma em cada 2.455 só foi descoberta no parto.

No caso de Cauany, o ciclo irregular eliminou o sinal que costuma acender a primeira suspeita: o atraso da menstruação. Mulheres que apresentam ciclos menstruais irregulares podem desenvolver a síndrome ovariana metabólica poliendócrina — designação adotada em 2026 no lugar da conhecida síndrome dos ovários policísticos —, na qual desequilíbrios hormonais são capazes de bloquear a ovulação ou até demandar estímulo hormonal para conseguir engravidar.
Ainda assim, quem menstrua duas vezes ao ano ovula, em tese, duas vezes ao ano. E basta uma dessas ovulações para engravidar.
Os mitos sobre os ovários pequenos
Os ovários pequenos tampouco indicam infertilidade. Quando há ingestão de hormônio externo — como em contraceptivos orais — o órgão cessa sua própria produção hormonal e sofre redução. Ele volta ao tamanho original quando a ovulação é retomada. Em mulheres ainda jovens, o declínio causado por perda funcional só fica comprovado pela medição de hormônios no sangue e pela ausência de menstruação, não pela dimensão do órgão.
O teste de farmácia que Cauany fez no início da gestação deu negativo porque esses testes só detectam o beta-HCG acima de um limite específico. Numa gestação muito inicial, a concentração pode não ter alcançado esse nível.
“Teste positivo não deixa dúvida, mas o negativo não permite afirmar que a mulher não está grávida”, resume a médica. O indicado seria fazer novo teste entre uma ou duas semanas depois ou optar pelo exame de sangue, mais eficaz em detectar concentrações inferiores do hormônio.
E agora? Os cuidados que vêm pela frente
Ao ficar sabendo da gravidez, a inquietação central de Cauany recaiu sobre possíveis efeitos dos medicamentos que usou nos meses anteriores. Ela usou desvenlafaxina, um antidepressivo, além de analgésicos fortes, e começou a temer malformações após pesquisar sobre os medicamentos.
Conforme aponta a ginecologista, medicamentos geralmente não são recomendados durante a gravidez porque não há testes com gestantes e existem lacunas nas pesquisas — embora isso não confirme prejudicialidade. Os treinos preocupam menos. Para uma mulher em bom estado de saúde, acostumada com prática de exercícios e com gestação seguindo seu curso normal, a atividade física não apresenta riscos. A rotina de Cauany foi sempre focada em manter a postura correta e fortalecer a região lombar, enquanto Geisi destaca que seu peso permaneceu sob controle.
Desse ponto em diante, movimentos com o abdômen voltado para baixo ou que comprimem a região abdominal saem do plano de treino. A ultrassonografia morfológica do primeiro trimestre, agendada entre a 10ª e a 14ª semana, não foi realizada e não existe possibilidade de ser refeita. Por volta das 20 semanas de gestação, recomenda-se um acompanhamento pré-natal intenso, incluindo a ultrassom morfológica do segundo trimestre e um ecocardiograma fetal para avaliar o coração do feto.
Uma lição de medicina prática
Para a médica, o caso é raro, mas possível. A gravidez provoca tantas alterações que, num organismo acostumado a sintomas diferentes, essas mudanças podem passar despercebidas. O mais importante é que profissionais considerem a gestação como primeira hipótese em mulheres em idade fértil com sintomas vagas — especialmente quando há dor, cansaço, enjoo, tontura e mudança de humor.
O aprendizado também vale para mulheres com ciclos irregulares: nunca é certo que você não pode engravidar. E para quem já trabalha com atividade física: observar o corpo de quem treina com você, notar mudanças sutis e agir com responsabilidade faz toda a diferença.
Por que a elevação pélvica revelou o que ninguém suspeitava
Com cerca de 20 semanas, o útero chega à altura do umbigo, causando um leve abaulamento. Quando Cauany fazia a elevação pélvica naquele dia, a protuberância ficou evidente. De acordo com o G1, o exercício de elevação pélvica também provocou uma dor típica da gravidez — quando o útero se expande, traciona os ligamentos redondos que o sustentam, podendo irradiar o incômodo até as pernas. Geisi, que atende gestantes há anos, reconheceu os sinais que a elevação pélvica havia desencadeado.
Por que tantos médicos não viram o óbvio
A omissão do teste básico fez com que os sintomas reais — cansaço intenso, enjoo, tontura, irritação e sensibilidade nos seios — fossem interpretados como doença neurológica. Segundo o G1, a ginecologista Ana Carolina Romanini alertou que toda mulher em idade fértil com dor, cansaço, enjoo, tontura e mudança de humor deve ter a gestação como primeira hipótese.
Gestações ocultas: quando ciclo irregular esconde a verdade
Uma pesquisa de 2002 divulgada na Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, realizada em Berlim, apontou dados notáveis: uma gestação a cada 475 só foi reconhecida após a 20ª semana, e outra a cada 2.455 veio à tona apenas no momento do parto. Para mulheres com ciclos menstruais irregulares — como Cauany, que menstruava apenas duas vezes ao ano —, o risco aumenta porque desaparece o sinal mais óbvio: o atraso da menstruação.
Dúvidas comuns sobre elevação pélvica
A elevação pélvica é segura durante a gravidez?
Em mulheres saudáveis, ativas fisicamente e com evolução gestacional adequada, a elevação pélvica não apresenta restrições nos primeiros meses. No caso de Cauany, a personal e a ginecologista avaliaram que seu peso controlado e a rotina de fortalecimento lombar a mantinham segura durante a elevação pélvica. Mas após confirmar a gravidez, movimentos com o abdômen voltado para baixo ou que comprimem a região abdominal são eliminados da rotina de exercícios.
Por que o treino de elevação pélvica revelou a gravidez?
Com cerca de 20 semanas, o útero chega à altura do umbigo. Essa posição de elevação pélvica tornou visível o que estava oculto, combinado com a observação atenta de uma personal que trabalhava com gestantes há anos e conhecia Cauany desde a adolescência.
Como Cauany chegou aos cinco meses sem perceber a gestação?
Cauany estava convencida de ser infértil porque seus ovários eram pequenos e seus ciclos menstruais raros — apenas duas vezes ao ano. Essa crença era tão forte que interpretou todos os sinais de gravidez como doença: dores migratórias, cansaço extremo, enjoo, tontura e sensibilidade nos seios foram diagnosticados como fibromialgia.
Todo ciclo irregular aumenta o risco de não perceber a gravidez?
Sim. Para mulheres com ciclos menstruais irregulares desaparece o sinal mais óbvio de gravidez: o atraso da menstruação. Pesquisa de 2002 revelou que em apenas uma a cada 475 gestações a condição foi identificada somente depois da 20ª semana. Quem menstrua duas vezes ao ano ovula, em tese, duas vezes ao ano, e basta uma dessas ovulações para engravidar — mesmo quem acredita ser infértil.
Disclaimer informativo: Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional de saúde. Consulte sempre um médico ou ginecologista antes de fazer qualquer exercício durante a gravidez ou em caso de dúvida sobre sua saúde. Fonte oficial — G1.
E você, conhece alguém que só descobriu estar grávida bem mais tarde? Ou acredita que deveria haver mais orientação para mulheres com ciclos irregulares sobre a importância de testes periódicos?
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