Foto: Philip Halling / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
A gente conhece J.R.R. Tolkien pelos épicos que criou, especialmente “Senhor dos Anéis”, mas raramente o vê falando abertamente sobre suas próprias criações — até porque boa parte do que ele disse ficou guardada num arquivo. Segundo reportagem do G1, uma entrevista que Tolkien deu à BBC em 1968 ressurfou décadas depois, e nela o autor faz uma confissão que surpreende: ele próprio não teria aceitado o chamado que Gandalf faz a Bilbo em “O Hobbit”.
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“Se um mago tivesse me procurado quando eu era pequeno, a situação teria sido totalmente diferente”, revelou Tolkien. “Eu teria encontrado alguma desculpa para não ir. Segundo ele, não tinha vontade alguma de se meter em uma situação constrangedora só para viver uma aventura, acrescentando, com sotaque bem britânico, que “fui muito bem educado para evitar conversar com idosos estranhos”.
A aventura que inspirou tudo
Mas apesar dessa timidez pessoal, Tolkien viveu sua própria jornada — literalmente. Ele contou que uma caminhada nas montanhas suíças em 1911, quando tinha 19 anos, foi fundamental para criar a travessia de Bilbo. “Um dos pontos fundamentais de ‘O Hobbit’ é uma das poucas aventuras que enfrentei na minha vida”, explicou.

Na ocasião, o grupo dormiu em lugares extraordinários, cruzou desfiladeiros perigosos com apenas mochilas nas costas e escapou da morte algumas vezes. “Acho que é por isso que, realmente, a jornada é uma experiência pessoal verdadeira, naturalmente alterada. Não encontramos nenhum goblin”, brincou o autor.
Os idiomas que o deixavam “inebriado”
Tolkien também revelou como nasceram os idiomas da Terra Média. Tudo começou quando era estudante de clássicos em Oxford e se distraiu com um hobby incomum: estudar finlandês. “Sua formação, sua textura sonora é muito marcante. Ele realmente me deixa bastante inebriado”, disse ele sobre o idioma.

Essa paixão foi tão intensa que seus ensaios sobre tragédia grega começaram a sofrer. “Eu simplesmente comecei e aprendi, quando deveria estar fazendo outras coisas. E as pessoas não conseguiam entender por que meus ensaios estavam ficando cada vez piores.”
Depois de voltar da Primeira Guerra Mundial, Tolkien trabalhou no Dicionário Oxford da Língua Inglesa e descobriu etimologias fascinantes — inclusive de palavras indígenas americanas, o que o levou aos idiomas algonquins. Tudo isso alimentou a criação da mitologia da Terra Média.
O momento que mais tocava Tolkien
A parte mais comovente da entrevista vem quando ele fala sobre Gollum e, especificamente, sobre uma cena crucial de “O Senhor dos Anéis”. Nela, o personagem está começando a se redimir e voltar a ser seu eu anterior, Sméagol — o lado bom estava vencendo. Ele tenta até acariciar Frodo enquanto o hobbit dorme.

Mas Sam, protetor de seu amigo, intervém e grita: “Tire as mãos daí.” E com essa ação bem-intencionada, impede a redenção de Gollum.
“As pessoas costumam me perguntar o que mais me comove”, contou Tolkien. “Acho que o ponto mais trágico de toda a história é a terrível ironia de que o bem, muitas vezes, faz o mal.”
O escritor enxergava naquele momento uma reflexão sobre a realidade: o bem, sem querer, pode causar dano. E isso refletia sua própria visão de mundo — uma onde a moralidade não é binária, nem tão simples quanto “bons contra maus”.
“As linhas gerais são muito simples”, explicou Tolkien. “Mas é claro que, na realidade, não é assim. Você observa o mal no lado bom. Não são apenas os bons contra os maus.”
Quando a entrevista saiu do arquivo
A entrevista de 1968 com Tolkien foi parcialmente ao ar na época, mas a maior parte ficou guardada nos arquivos da BBC durante décadas. Só em 2019, segundo o G1, as filmagens inéditas foram desenterradas para um programa de rádio, revelando momentos de candura do autor que nunca tinham sido vistos por seus fãs.
Como Tolkien descobriu os idiomas da Terra Média
O finlandês foi o grande culpado pela criação dos idiomas de “Senhor dos Anéis”. Quando Tolkien era estudante de clássicos em Oxford, passou a estudar o idioma e ficou tão apaixonado que seus ensaios sobre tragédia grega começaram a sofrer. “Eu simplesmente comecei e aprendi, quando deveria estar fazendo outras coisas”, confessou ele na entrevista.
Depois de voltar da Primeira Guerra Mundial, Tolkien trabalhou como assistente do Dicionário Oxford da Língua Inglesa e teve contato com etimologias fascinantes. Ao pesquisar a palavra “wampum” — termo que designa contas feitas de conchas por povos nativos americanos — descobriu os idiomas algonquins do leste da América do Norte. Segundo o G1, o próprio Tolkien explicou que a base do idioma da Terra Média é “extremamente finlandesa”, mas misturada com grego e outros idiomas que aprendeu ao longo da vida.
A reflexão de Tolkien sobre moralidade
Para o autor, “Senhor dos Anéis” não era apenas um épico de fantasia — era uma exploração da complexidade moral.
Segundo Tolkien, essa situação refletia a vida real, onde “o bem, muitas vezes, faz o mal” sem querer. Para o autor, as linhas entre certo e errado nunca eram tão simples quanto pareciam.
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