
References
↑ Bailleul, Alida M. (20 March 2019). “An Early Cretaceous enantiornithine (Aves) preserving an unlaid egg and probable medullary bone”. Nature Communications 10. DOI:10.1038/s41467-019-09259-x. Retrieved on 22 March 2019. / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
A história do consumo de drogas pela humanidade é bem mais antiga do que se imaginava. Enquanto a maioria dos cientistas acreditava que esse hábito começou há apenas 13 mil anos, com a chegada da agricultura e das bebidas alcoólicas fermentadas, uma revelação surpreendente acaba de virar o assunto do momento na comunidade científica.
Pesquisadores analisaram esqueletos humanos descobertos na Indonésia e encontraram algo impressionante: marcas de desgaste nunca vistas em dentes pré-históricos. Esses achados sugerem que nossos antepassados já consumiam substâncias psicoativas muito antes da agricultura existir — e o material da época ainda estava lá para contar a história.
Os dentes que revelam um segredo de 25 mil anos
A descoberta aconteceu na ilha indonésia de Sulawesi, onde cientistas publicaram seus achados na revista científica Science Advances. O que chamou a atenção foram dois esqueletos com molares que apresentavam sulcos profundos e arredondados muito específicos — um padrão de desgaste que jamais havia sido observado em dentição pré-histórica.
Aqueles sulcos não eram causados por comida comum ou hábitos cotidianos. Os pesquisadores identificaram a causa: os dentes revelavam que aqueles humanos mastigavam sementes de noz de bétele, uma planta psicoestimulante conhecida há milhares de anos nas culturas da Ásia e do Pacífico.
O que prova isso? Análises bioquímicas encontraram nos dentes restos de arecolina, o composto psicoativo presente na noz de bétele. A evidência química fechou o caso: nossos antepassados caçadores-coletores realmente usavam drogas.
Uma substância mais popular do que você pensa
A noz de bétele — também chamada de noz de areca — é hoje a quarta substância psicoestimulante mais usada no mundo inteiro. Atrás apenas de nicotina, álcool e cafeína, ela é consumida por aproximadamente uma em cada dez pessoas globalmente.
Os efeitos são moderados, mas reais: a semente causa uma sensação de euforia leve e aumenta o estado de alerta. Nada tão intenso quanto outras drogas, mas o suficiente para explicar por que tantas culturas, ao longo dos séculos, mantiveram o hábito vivo.
Recuando 10 mil anos na história
Até agora, as evidências mais antigas do consumo de noz de bétele datavam de apenas 3,5 mil anos atrás. Pesquisadores encontraram resíduos químicos nos dentes de uma pessoa que viveu na Tailândia naquele período — mas isso parecia ser o limite do conhecimento histórico.
A nova descoberta na Indonésia muda tudo. Os esqueletos analisados têm entre 16 mil e 25 mil anos de idade. Isso significa que o uso de substâncias psicoestimulantes surgiu entre 3 mil e 12 mil anos antes do que se estimava anteriormente.
“Ao identificar a prática antiga como a origem do consumo da noz de areca tal como o conhecemos, o estudo sugere que alguns comportamentos modernos relacionados ao uso de drogas estão profundamente enraizados nas tradições de grupos caçadores-coletores”, afirma Adam Brumm, professor da Universidade Griffith (Austrália) que liderou a pesquisa.
Como nossos antepassados consumiam as sementes
A maneira como as pessoas usam a noz de bétele hoje é bem diferente de como era feito na Pré-História. Atualmente, masca-se a semente envolvida em uma folha de bétele, frequentemente misturada com cal hidratada — um ingrediente que acelera a liberação do composto psicoativo.
Nossos antepassados caçadores-coletores, porém, provavelmente apenas chupavam a semente pura, sem a cal. A evidência está exatamente nos sulcos dos dentes: aqueles padrões de desgaste indicam que esses humanos mantinham as sementes entre os dentes por longos períodos.
Sem a cal hidratada, a quantidade de arecolina liberada era bem menor. O “barato” era menos intenso, muito mais suave do que o efeito moderno. Os pesquisadores acreditam que o verdadeiro propósito era diferente: a semente possivelmente funcionava como um analgésico natural.
Um ciclo vicioso que dura séculos
Aqui está a parte sombria dessa história: mascando sementes duras e abrasivas por anos a fio, os dentes desses caçadores-coletores sofriam um desgaste extremo. Em alguns casos, a câmara pulpar — a parte interna do dente — ficava completamente exposta.
“Isso teria sido extremamente doloroso, e teria causado dificuldade para comer, além de aumentar muito a taxa de infecções dentárias crônicas”, explica Brumm.
A ironia é quase cruel: uma prática que começou como um remédio para dores de dente acabava criando problemas bucais muito piores. Para aliviar a dor causada por anos de consumo, as pessoas provavelmente aumentavam ainda mais o uso da semente — estabelecendo um ciclo de dependência que durava toda uma vida.
O estudo oferece, portanto, um exemplo raro e antigo de como o uso de drogas pode se transformar em dependência contínua — uma dinâmica que atravessou milhares de anos de história humana sem nunca desaparecer completamente.
Fonte: Super Abril
Deixe um comentário