
References
↑ Bailleul, Alida M. (20 March 2019). “An Early Cretaceous enantiornithine (Aves) preserving an unlaid egg and probable medullary bone”. Nature Communications 10. DOI:10.1038/s41467-019-09259-x. Retrieved on 22 March 2019. / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Uma pedreira abandonada no sudoeste da China abriu uma janela para o passado — e revelou segredos guardados há mais de 130 mil anos sobre um de nossos parentes extintos mais misteriosos: os denisovanos. Sete novos fósseis encontrados no local, incluindo o primeiro fragmento de braço dessa espécie já descoberto, agora permitem aos cientistas entender de verdade como esses hominídeos viviam, caçavam e se adaptavam ao seu mundo.
Quem eram os denisovanos — e por que sabemos tão pouco deles?
Os denisovanos foram hominídeos que conviveram e até se reproduziram com os humanos modernos — tanto que carregamos seu DNA em nosso material genético. A herança denisovana é especialmente forte em pessoas do Leste e Sudeste Asiático, aborígenes australianos e nativos da Papua-Nova Guiné.
Mas aqui está o detalhe chocante: essa espécie só foi identificada em 2010, através de DNA encontrado em fragmentos de osso na caverna da Denisova, na Sibéria. Durante anos, esses poucos fósseis foram praticamente tudo o que tínhamos — bem menos que os neandertais, nossos outros parentes extintos, dos quais conhecemos muito mais.
Décadas de segredos em uma caverna chinesa
Tudo mudou em 2019, quando trabalhadores fazendo uma restauração ecológica na Caverna Bianfu, em Yunnan, na China, descobriram artefatos e ossos que pareciam valiosos. Desde então, arqueólogos não pararam de escavar o local — e os achados não cessaram de aparecer.
A análise das proteínas dos fósseis (usada porque o DNA se degrada com o tempo) confirmou o que parecia impossível: sete dos ossos encontrados pertenciam a denisovanos. Entre eles, quatro dentes, dois fragmentos de crânios e aquele pedaço revolucionário de rádio — o osso do antebraço que é a primeira prova física do braço dessa espécie.
Caçadores primitivos, mas impressionantemente habilidosos
O que tornou essa descoberta ainda mais emocionante foi encontrar ao lado dos fósseis uma verdadeira cena de caça congelada no tempo. A caverna estava repleta de ossos de mamíferos de médio e grande porte: veados e búfalos-asiáticos — animais que não são fáceis de capturar.
As ferramentas dos denisovanos eram simples e primitivas, feitas de pedras lascadas ou ossos, produzidas com apenas alguns golpes em vez de serem cuidadosamente moldadas. Isso sugere que as faziam para uso imediato.
Mas não se engane pela simplicidade das ferramentas: os denisovanos eram caçadores estratégicos. Os arqueólogos encontraram evidências de que extraíam a medula óssea das presas — uma parte repleta de calorias e gorduras — o que indica conhecimento do que caçavam. Capturar esses animais de grande porte exigia planejamento complexo e, muito provavelmente, trabalho em equipe.
Um registro de 120 mil anos de ocupação
Aqui vem o detalhe que amplia ainda mais a importância da descoberta: os fósseis denisovanos foram encontrados em camadas arqueológicas diferentes, indicando que diversos indivíduos viveram naquele local em tempos distintos. Os cientistas estimam que eles habitaram a caverna entre 167 mil e 134 mil anos atrás.
As ferramentas, porém, cobrem um período muito mais longo: de 190 mil a 70 mil anos atrás — uma possível ocupação do local de até 120 mil anos. Isso abre questões fascinantes sobre a continuidade de vida naquele lugar e como diferentes espécies humanas moldaram a região ao longo de eras inimagináveis.
O que essa descoberta muda para a ciência
Bo Li, professor da Universidade de Wollongong, na Austrália, e um dos autores dos estudos publicados na revista Nature, explica a importância: “Este sítio arqueológico é significativo porque reúne fósseis, tecnologias e estratégias de subsistência em um único e longo registro estratificado. Ele nos permite ir além de descobertas isoladas e mostrar como os denisovanos realmente se adaptaram ao seu entorno.”
Até agora, sabíamos dos denisovanos principalmente por seus genes — hoje, temos provas concretas de como eles viveram, caçaram e ocuparam o mundo. E o mais impressionante: isso revela quão diversas e complexas eram as tecnologias das antigas populações humanas no Leste Asiático há mais de 100 mil anos.
Fonte: Super Interessante
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