Foto: Raph_PH / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
O trio de rap Kneecap no Brasil chega nesta sexta-feira (23) para seu primeiro show no país, no Cine Joia em São Paulo — e não vem só com batidas pesadas e rimas em gaélico, mas também com uma mensagem política que conecta a história de opressão do povo irlandês à luta palestina.
Formado em 2017 em Belfast, o grupo une beats agressivos, humor ácido e ativismo de forma tão natural que virou marca registrada. Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí (identificável pela balaclava com cores irlandesas) cantam quase integralmente em gaélico — o idioma que foi reprimido por séculos de domínio britânico.
De acusação de terrorismo a vitória nos tribunais
Antes de pisar em terras brasileiras, o Kneecap já vinha acumulando histórias de peso. Mo Chara foi acusado de terrorismo por supostamente ter levantado uma bandeira do Hezbollah durante um show em Londres. A acusação? Anulada por um juiz. Mas não foi só frustração: o cantor transformou toda essa confusão em combustível criativo e lançou o álbum “Fenian”, que misturou estúdio e tribunal de forma jamais vista.

“No verdadeiro estilo Kneecap, nós viramos o jogo a nosso favor e criamos músicas como ‘Carnival’”, conta Mo Chara. Enquanto a maioria das bandas se tranca em estúdio por semanas, a gente precisou disputar tempo entre as sessões de gravação e o tribunal, conforme aponta integrante da Kneecap no Brasil. O que poderia ter virado um empecilho considerável terminou sendo apenas uma contrariedade.
Irlanda, Palestina e 800 anos de colonialismo
A defesa da causa palestina pelo Kneecap não é um gesto vazio ou modinha. Segundo reportagem do G1, o grupo enxerga paralelos diretos entre a história de seu povo e o que acontece na Palestina.
“Depois de 800 anos de colonialismo, é natural ter empatia por pessoas que estão sendo colonizadas em qualquer lugar do mundo”, explica Mo Chara. Ele vai além: identifica os mesmos padrões de opressão — a comida usada como arma (como na Grande Fome irlandesa e em Gaza), o rótulo de “terroristas” colado em ambos os povos, o deslocamento forçado.
Hip-hop como ferramenta de contação de histórias
Questionar por que pessoas brancas fazem rap é legítimo — o gênero nasceu da resistência da comunidade negra nos EUA. Mo Chara não foge da pergunta. Ele aponta que a luta irlandesa (sem jamais igualar a negra) carrega semelhanças: 800 anos de brutalidade, língua e cultura levadas quase à extinção.

Mas o que une tudo é a tradição milenar de contação de histórias na cultura irlandesa. “Há narrativas que duram 45 minutos em que a pessoa sabe cada palavra de cor em volta da fogueira”, conta. De acordo com o grupo, o hip-hop se mostra como a melhor ferramenta para contar histórias na era contemporânea. Nós tínhamos uma história para contar e nossa comunidade não tinha espaço na grande mídia.”
Expectativas altas para o público brasileiro
Ao ser questionado sobre a América Latina, Mo Chara deixa claro o entusiasmo: “Essa região sempre é um desses destinos que quem trabalha com música adora visitar. Sempre ouvi histórias sobre como o público é incrível.” A venda de ingressos no Brasil confirmou o entusiasmo — os bilhetes saíram rápido.
A turnê pela região será intensa (México, Colômbia, Chile, Argentina), mas sem tempo de sobra para turismo. Ainda assim, o trio espera levar sua mensagem a plateias que, diferente da Europa e dos EUA, talvez ainda não conheçam bem a história de opressão e resistência que move o Kneecap desde o começo.
A turnê latino-americana e expectativas com o público
Segundo entrevista ao G1, Mo Chara explica que a América Latina sempre atraiu músicos de fora pela reputação de plateias incríveis. Para ele, é uma região inacreditável, com culturas completamente diferentes convivendo lado a lado. Os ingressos para o Brasil saíram rápido, confirmando o entusiasmo do público.
A tradição de contação de histórias e o hip-hop moderno
Mo Chara esclarece por que o Kneecap escolheu o rap como ferramenta política. A Irlanda tem uma tradição milenar de contar histórias: “Há narrativas famosas que chegam a durar 45 minutos em que a pessoa sabe cada palavra de cor em volta da fogueira”, explica. O grupo via no hip-hop o caminho natural para compartilhar sua história nos dias de hoje.
Ao questionar se é legítimo um trio branco fazer rap — gênero nascido da luta negra nos EUA — Mo Chara reconhece as semelhanças sem igualar as lutas. “Tivemos 800 anos de opressão e brutalidade completa, em que nossa língua e cultura foram levadas quase à extinção”, diz. “Não existe jeito melhor de contar histórias no mundo moderno do que através do hip-hop.”
A mesma brutalidade colonial: da Irlanda à Palestina
Mo Chara aprofunda a ligação histórica entre os povos oprimidos. Quando o sul conquistou independência em 1921, Winston Churchill mandou os mesmos soldados direto para a Palestina. “Fomos oprimidos exatamente pelas mesmas pessoas”, conclui o rapper.
Perguntas e respostas sobre Kneecap
Quem são os integrantes do Kneecap?
O trio é formado por Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí, identificável pela balaclava com cores irlandesas. Todos são de Belfast e criaram o grupo em 2017, unindo batidas pesadas, humor ácido e ativismo político com rimas quase integrais em gaélico.
Como é legítimo um trio branco fazer rap ativista?
O Kneecap reconhece que o hip-hop nasceu da luta negra nos EUA, mas aponta semelhanças sem igualar as lutas. A Irlanda teve 800 anos de opressão, sua língua e cultura foram levadas quase à extinção. O grupo une isso a uma tradição milenar de contação de histórias e enxerga no hip-hop o jeito moderno de contar sua história para uma comunidade sem espaço na grande mídia.
Qual foi o impacto da acusação de terrorismo no trabalho do Kneecap?
Mo Chara foi acusado de terrorismo por supostamente levantar uma bandeira do Hezbollah em um show em Londres, mas um juiz anulou a acusação. O cantor transformou a experiência em combustível criativo: “No verdadeiro estilo Kneecap, viramos o jogo a nosso favor”. A banda dividiu o tempo entre tribunal e estúdio para gravar o álbum “Fenian”, incluindo a música “Carnival”.
Do Japão à Europa: o caminho até o Brasil
Desde 2025, o trio já passou pelo Japão e fez uma turnê pelo resto da Europa, segundo o g1. Nesse período, o grupo lançou um segundo disco celebrado pela crítica.
A turnê pela América Latina passa pelo México, pela Colômbia, pelo Chile e pela Argentina. Mo Chara explica que viajar com todos os equipamentos é muito caro, e por isso o tempo na região é curto. Pelo roteiro, o trio faz um show e voa logo para o país seguinte.
Turnê curta e orçamento apertado
Em entrevista ao g1, o grupo lembrou uma turnê anterior pelos Estados Unidos, em 2023, quando precisava dividir o mesmo quarto e a verba era bem curta. Na América Latina, Mo Chara diz que o tempo também é pouco: “Infelizmente não temos tanto tempo”.
Sobre a composição, o g1 aponta que o trio mescla irlandês e inglês de forma intuitiva e natural, e busca retratar de forma autêntica o dia a dia em Belfast. Quando a procura dos fãs foi citada na escolha da rota, Mo Chara respondeu: “Sendo sincero, eu só apareço no palco e grito”.
Kneecap no Brasil: o que esperar do show
O show acontece nesta sexta-feira (23), no Cine Joia, em São Paulo, e é a primeira apresentação do grupo no país. Mo Chara diz que está extremamente empolgado e espera que este seja o primeiro de muitos shows no Brasil.

Ao comentar a acusação de terrorismo, Mo Chara afirma que ela deveria ter representado um entrave maior, mas acabou sendo apenas um incômodo que teve influência sobre o álbum. Ele diz que ficou muito feliz com o resultado e com essa “contribuição” do governo britânico ao álbum.
O nome Mo Chara significa “meu amigo”, em irlandês. O grupo mistura inglês e irlandês de forma intuitiva ao compor, segundo a entrevista ao g1.
E você, conhecia a conexão que o Kneecap faz entre a luta irlandesa e a palestina? Acha válido um grupo branco fazer rap ativista?
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