Foto: GT1976 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Um novo estudo publicado em junho no American Journal of Clinical Nutrition trouxe uma revelação que pode mudar a forma como você enxerga aquele prato de salada: a vitamina K está ligada a uma melhor saúde pulmonar. Pesquisadores de universidades australianas e europeias analisaram dados de mais de 179 mil participantes acompanhados por 10 anos, usando informações do UK Biobank, levantamento nacional do Reino Unido.
A descoberta não é nada pequena. Segundo a Super Interessante, o consumo de vitamina K1 — aquela encontrada em vegetais — foi associado a uma melhor função pulmonar e até a uma redução do risco de desenvolver doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), um distúrbio que prejudica a passagem de ar pelos pulmões e causa falta de ar e cansaço.
Mas espera: isso é realmente uma cura?
Aqui vai uma provocação: antes de sair por aí contando que vitamina K cura tudo, é importante entender o que a ciência realmente está dizendo. O pneumologista Guylherme Saraiva, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, faz um alerta importante: “Trata-se de um estudo bem conduzido e relevante, mas precisa ser lido com cautela, porque representa associação, não causalidade”.
Traduzindo: só porque as pessoas que comem mais vitamina K têm pulmões melhores não significa que a vitamina foi responsável por isso. Pode ser que pessoas saudáveis em geral comam melhor, façam mais exercício e tenham outros hábitos que protegem os pulmões. A pesquisa gera hipóteses, mas ensaios clínicos randomizados — considerados o padrão-ouro da pesquisa científica — ainda precisam confirmar se existe mesmo uma relação de causa e efeito.
Como a vitamina K pode estar ajudando
Mesmo sem ser uma cura comprovada, os pesquisadores conseguem explicar alguns mecanismos que podem estar por trás dessa associação. Um deles envolve a proteção contra calcificação vascular — um processo prejudicial que é comum na DPOC.
Mas tem mais. Os alimentos ricos em vitamina K1, como vegetais folhosos, não vêm sozinhos. Couve, espinafre, brócolis, agrião, rúcula e alface também fornecem outros nutrientes com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, conforme explica Saraiva. Ou seja, pode ser que o efeito protetor não venha só da vitamina, mas do pacote todo que esses vegetais oferecem.
O conselho de ouro para os pulmões
A nutricionista Tânia Andrade, também do Einstein, não faz mistério: a mensagem mais segura do estudo é simples e direta. A gente deveria pensar menos em suplementação e mais em padrões alimentares variados com muitas hortaliças, frutas, grãos, cereais integrais e sementes.
Além de caprichar no cardápio equilibrado, outras estratégias são bem-vindas — e não é nenhuma novidade. Evitar o tabagismo continua sendo essencial. Vacinação adequada, atividade física regular, e controle de exposição a poluição e fumaça também são importantes para quem quer manter os pulmões saudáveis.
Segundo a nutricionista, a indicação de suplementos de vitamina K deve ficar a cargo de um médico ou nutricionista, já que existem contraindicações relevantes, especialmente para pessoas que tomam determinados medicamentos anticoagulantes. Nada de sair por aí tomando vitaminas por conta própria achando que vai resolver tudo.
Vitamina K: muito mais que pulmões
O papel mais consolidado da vitamina K na medicina está mesmo na coagulação sanguínea. A letra K vem da palavra alemã koagulation (coagulação), e foi escolhida pelo bioquímico dinamarquês Carl Peter Henrik Dam, que ganhou o Prêmio Nobel por suas descobertas sobre o composto.
Vitamina K não é uma, mas um grupo de vitaminas lipossolúveis — solúveis em gordura. A K1 (filoquinona), que foi o destaque do estudo dos pulmões, é essencial para o controle do sangramento e também contribui para a saúde óssea. Ela aparece em couve, espinafre, brócolis, agrião, rúcula, alface, repolho e óleos vegetais como soja e canola. Detalhe importante: sua absorção funciona melhor quando você consome esses alimentos acompanhados de uma fonte de gordura.
Existe também a vitamina K2 (menaquinonas), que é um grupo de diferentes formas (MK-4 a MK-13). Algumas são produzidas por bactérias e estão presentes em alimentos fermentados como nattô (um fermentado de soja), queijos maturados, iogurtes, gema de ovo e carnes como fígado. Ela favorece a mineralização óssea e há indícios de benefícios à saúde cardiovascular.
A K3 (menadiona), sintetizada em laboratório, é uma história diferente. Essa opção não é recomendada em razão do risco de toxicidade, sobretudo pela possibilidade de danos ao fígado e anemia hemolítica.
E aí, você já pensava em vitamina K antes de ler isso, ou é a primeira vez que ouve falar que ela pode fazer mais que apenas coagular o sangue?
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